Envelhecimento populacional e arquitetura inclusiva: Estratégias para projeto de residências

O envelhecimento da população é um fenômeno que está acontecendo em todo o mundo. No Brasil a expectativa de vida é de cerca de 75 anos. Segundo o IBGE, até 2060 teremos uma população de 19 milhões de pessoas com mais de 80 anos.


No dia 1º de outubro comemoramos o Dia Internacional do Idoso, que foi instituído pela ONU em 1990, com o objetivo de chamar a atenção de todos para as questões relacionadas aos mais velhos, bem como homenageá-los.

O aumento da longevidade traz à luz importantes debates acerca do assunto: tanto na esfera pública quanto na privada, é fundamental discutirmos quais serão as estratégias nas áreas da saúde, educação, cultura, trabalho, infraestrutura, previdência e assistência à esta população, para garantir a qualidade de vida de nossos idosos de hoje, e também a nossa em um futuro próximo.

Neste sentido, precisamos mudar nossos paradigmas em relação aos ambientes que projetamos e construímos, principalmente em relação às residências. Muito mais do que um abrigo físico, a casa possui um valor simbólico e afetivo que expressa a personalidade e os valores das pessoas que nela moram. É o lugar onde os indivíduos se sentem à vontade para serem quem são, onde buscam conforto físico e emocional (SCÁRDUA, 2011).

Esses valores simbólicos e a sensação de conforto físico e emocional é ainda maior para os idosos, pois, com o envelhecimento vem a aposentadoria e as pessoas tendem a passar mais tempo em casa. Se estes espaços não estiverem adequados para esta nova fase da vida, a autonomia e a qualidade de vida podem ser altamente comprometidas.

Quando nós, arquitetos, recebemos a incumbência de desenvolver projetos para construção ou reforma de residências é fundamental que alertemos nossos clientes sobre os benefícios dos ambientes construídos com Design Universal, e como ao longo do tempo as vantagens de espaços acessíveis aumentam progressivamente.


Para exemplificar vou apresentar um projeto de residência que desenvolvi há algum tempo atrás. O escopo proposto pelo cliente era de uma casa com três dormitórios e área de lazer para receber os filhos e netos. Os espaços deveriam ser amplos e confortáveis, com um estilo de arquitetura contemporânea, com grandes vãos e ambientes integrados. A principal estratégia utilizada neste projeto foi esclarecer e discutir com os proprietários quais seriam as características fundamentais da residência, para que eles pudessem ter tudo aquilo que foi solicitado inicialmente e muito mais: os espaços seriam capazes de dar o suporte necessário para que eles tenham maior autonomia para a realização das tarefas cotidianas ao longo do tempo, com segurança e qualidade de vida.

Assim, o casal com mais de 70 anos, com notável vitalidade, mas que já sentiam os efeitos da idade, nos ajudou a estipular os critérios que o projeto deveria atender:

  1. Acesso livre de barreiras a partir da rua e em todos os ambientes da casa;

  2. Espaço adequado para aproximação e uso em todos os ambientes e funcionalidades existentes na casa;

  3. Previsão para implantação de itens de tecnologia assistiva que possam dar mais segurança e autonomia no desempenho das atividades diárias, na medida em que fossem necessários;

  4. Espaços projetados para pessoas de todas as idades e características físicas, que pudessem ser facilmente ajustados à necessidades específicas não previstas dos usuários, caso surjam ao longo do tempo.

  5. Estilo de arquitetura contemporânea e atual, onde o Design Universal deverá ser parte integrante das soluções estéticas e formais.

  6. No caso de ambientes que não fossem totalmente acessíveis no momento da construção, estes deveriam estar preparados para simples ajustes, na medida em que a plena acessibilidade se torne necessária.

O primeiro desafio deste projeto foi a questão do acesso, pois o terreno possuía topografia com forte aclive (figura 1), em uma via de grande fluxo de veículos. Além disso, os proprietários desejavam que a casa fosse implantada o mais alto possível em relação ao nível da rua.


Figura 1: Corte longitudinal


Assim, o terreno foi dividido em dois grandes platôs: o nível da garagem e entrada da residência e o nível da casa.


A entrada das pessoas a partir da rua (figura 1) acontece em uma área plana e o acesso ao nível da entrada da casa pode ser feito por escadas ou através de uma plataforma elevatória. Apesar de haver espaço na frente da casa para uma rampa, os proprietários queriam preservar a maior quantidade possível de área verde e por isso, a solução mais adequada foi a plataforma elevatória.



Figura 2: Acesso de pessoas


A garagem (figura 3) é ampla, com espaço suficiente para acomodar inclusive uma ambulância.


Figura 3: Garagem

Para realizar o acesso do nível da garagem (figura 4) para o nível da casa (figura 5) foram previstas duas escadas (uma externa e outra interna) e para garantir a acessibilidade de todos, um elevador residencial.

Figura 4: Planta do nível da garagem



O nível da casa é fica 4,00 metros acima do nível da garagem, proporcionando uma bela vista a partir das varandas frontais – outro desejo dos proprietários (figura 6). Não seria viável vencer tal desnível com rampas, porque ficariam extremamente longas e demandariam muita área.


Figura 5: Planta do nível da casa




Figura 6: Fachada Frontal



Foram projetadas 3 suítes para a residência, sendo uma delas com closet. Todas possuem espaço suficiente para que uma pessoa em cadeira de rodas possa utilizar os quartos e banheiros, faltando apenas a instalação das barras de apoio, no momento em que forem necessárias.

Um dos sonhos dos proprietários era que a sala de estar possuísse um desnível em relação à sala de jantar. Este requisito pode ser atendido através de um degrau e uma leve rampa colocada na sala de estar, que definem o espaço de estar e a circulação da mesma. A cozinha, totalmente integrada à sala de jantar, possuirá ilha central para o fogão. Todas as bancadas projetadas com altura adequada para se adaptarem às necessidades dos moradores ao longo do tempo, bem como o espaço necessário para a aproximação e uso das bancadas por pessoa em cadeira de rodas.


Tanto o lavabo interno quanto o que atende à área de lazer, ao terem suas portas com sentido de abertura invertido para fora, se tornarão plenamente acessíveis. Ponto alto do projeto, a área de lazer inclui churrasqueira, sauna e piscina. A sauna, acessível a pessoas em cadeira de rodas, possui acesso direto para a piscina.


A piscina (figura 7) foi projetada com acesso através de rampa, onde poderá ser instalado um equipamento mecânico para acesso de pessoas com deficiência na ambulação, caso seja necessário. A raia com profundidade de 1,50 metros tem como objetivo, além do lazer, possibilitar a prática de exercícios físicos e fisioterápicos.


Figura 7: Piscina


Durante o processo de projeto foi fácil demostrar aos clientes que investir em uma casa plenamente acessível traria uma série de benefícios que eles, os filhos, netos e amigos poderiam ter:



Projetar e construir espaços acessíveis não é somente um ato de responsabilidade, carinho e cuidado com nossos idosos de hoje. Significa também projetar e construir ambientes com qualidade, que sejam socialmente responsáveis e inclusivos, pois provavelmente estes são os lugares do nosso futuro. Para muitos, um futuro próximo, pois todos envelheceremos.


Por isso, não podemos deixar de perguntar: que tipo de lugar queremos viver? Que sociedade queremos construir?

REFERÊNCIAS:


SCÁRDUA, A. V. C. A casa e seu significado: refúgio para o bem-estar físico e emocional. Disponível em: https://angelitascardua.wordpress.com/2011/08/02/a-casa-e-seu-significado-para-o-bem-estar-fisico-e-emocional/. 2011


STEINFELD, Edward; DUNCAN, James; CARDELL, Paul. Changing attitudes through design. In Access to the built environment: a review of literature. Whashington: Department of Housing and Urban Development – HUDD, 1979. P.144-150.

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