Acessibilidade ambiental: as relações entre o entorno urbano e as edificações

August 10, 2017

Certa vez, durante o desenvolvimento de um projeto, uma colaboradora me perguntou porque que eu me preocupava tanto em conhecer, analisar e integrar o projeto da edificação ao entorno urbano. Para ela, o projeto iniciava-se do alinhamento do lote para dentro. Aquilo que estava fora, não seria problema nosso.

 

O ponto é: muito além de se produzir uma arquitetura inclusiva, onde não se admite que quaisquer grupos de pessoas sejam excluídos, hoje vivemos em uma sociedade onde estamos o tempo todo conectados aos outros e ao mundo exterior. E assim acontece com as edificações: elas estão conectadas ao meio externo, de maneira que fazem parte dele e dele dependem.

 

Ou seja, projetar com Design Universal implica não somente em desenvolver um ambiente, um produto ou um serviço que atenda ao maior número de pessoas possível, mas também buscar soluções sustentáveis e integradas ao meio onde vivemos. Afinal, de que adianta a edificação ser plenamente acessível, se as pessoas não conseguem chegar até ela?

 

A partir deste pensamento, entendemos que o entorno urbano passa a ser obrigatoriamente parte integrante das soluções do projeto: a calçada, o ponto de ônibus, as vagas de estacionamento, o sistema de transporte (individual ou coletivo), o sistema de comunicação (sinalização, informação, localização, etc) enfim, todos os elementos que possam direta ou indiretamente interferir com o funcionamento do lugar que se está projetando.

 

E isso se torna muito mais relevante quando falamos de edificações de uso coletivo, visto que garantir o direito fundamental de ir e vir das pessoas é uma obrigação.Para compreender melhor esta relação, apresento a seguir algumas fotografias que fiz caminhando pela avenida principal de um bairro de Belo Horizonte.

 

 

Esta avenida poderia ser encontrada em vários bairros de diversas cidades pelo nosso país. Nela há edifícios residenciais, comerciais e institucionais. É uma via arterial, com trechos inclinados e trechos planos, possui grande fluxo de veículos e pessoas, pois boa parte do comércio de apoio (farmácia, padaria, supermercado, escolas) localiza-se aqui.

 

Quando falamos em acesso, para a maioria das pessoas o elemento que surge na mente é a entrada. E por isso é fundamental que falemos delas.

 

Os lotes desta avenida possuem um recuo frontal generoso, o que possibilita soluções para as entradas como a da Foto 1. Neste edifício residencial a entrada de veículos fica bem ao lado da entrada de pedestres, podendo ser utilizada como área de embarque e desembarque. Para pessoas com dificuldade de locomoção, isso tem grande serventia. E para ficar claro, no grupo das pessoas com dificuldade de locomoção vamos considerar as pessoas com deficiência, idosos, gestantes e pessoas com crianças de colo, pessoas acidentadas, ou até mesmo pessoas que não possuem deficiência aparente em dias de forte chuva. O benefício é para todos!

 

Foto 1 – Edifício residencial

Fonte: PICCELI, 2017

 

 

Esta solução nos mostra que recuar a edificação para priorizar acessos melhores e mais confortáveis garante que todas as pessoas cheguem às edificações. Poderíamos melhorar este cenário incluindo uma vaga reservada para acessibilidade dos visitantes no espaço recuo.

 

Foto 2 – Farmácia

Fonte: Google Maps, 2017

 

Na Foto 2 temos uma farmácia com estacionamento à frente da loja. Há demarcação de vaga reservada para acessibilidade. Neste caso a existência da vaga acessível é determinante para a preferência dos consumidores com mobilidade reduzida, pois infelizmente, não há vagas deste tipo demarcadas ao longo da avenida.

 

Reparem também nos bancos dispostos junto ao passeio. O que a princípio pode parecer um elemento decorativo, tem grande valor para as pessoas com dificuldade de locomoção, pois pode ser o local de descanso entre o percurso de casa e a farmácia, assegurando mais uma vez a preferência do consumidor na hora de escolher entre esta ou outra farmácia. Além disso, os bancos estimulam a permanência das pessoas no local, incentivando o convívio entre os moradores.

 

Foto 3 – Escola

Fonte: Google Maps, 2017

 

Outro exemplo de como é estreita a relação entre a edificação e a rua é a Foto 3. Esta é a entrada de uma escola. Em uma avenida de grande movimento, ter uma área para embarque e desembarque das crianças é fundamental: aumenta a segurança dos estudantes e minimiza o tumulto no tráfego de veículos nos horários de entrada e saída. Há ainda o benefício de se ter uma área plana para desembarque em um trecho de aclive da via, o que facilita o chegar e partir de pessoas com mobilidade reduzida e pessoas em cadeiras de roda.

 

No entanto, falta no local melhorar a qualidade do pavimento da calçada e toda a sinalização tátil e visual para garantir a segurança e a orientação espacial das pessoas que caminham por ali.

 

E por falar em sinalização, reparem na Foto 4: a falta de conexão entre o piso tátil das calçadas de lotes diferentes é um problema recorrente em toda a cidade. Para pessoas com deficiência na visão isso pode causar confusão na orientação espacial. E este não é o único ponto negativo em relação às calçadas. Ao longo da avenida há vários trechos onde o piso é irregular, com muitos buracos e barreiras, e onde, apesar do largo recuo existente diante dos lotes, a calçada é estreita.

 

Na Foto 5 podemos ver um ponto de ônibus localizado em uma calçada com 1,80 metros de largura. Não há espaço suficiente para que uma pessoa em cadeira de rodas possa ficar no ponto de ônibus sem atrapalhar a passagem de outras pessoas pela calçada.

 

Foto 4 – Edifício residencial

Fonte: PICCELI, 2017

 

 

Foto 5 – Ponto de ônibus

Fonte: PICCELI, 2017

 

Do ponto de vista da acessibilidade, a relação entre as edificações e seu entorno pode determinar, além da qualidade de vida das pessoas que habitam e frequentam dada localidade, o sucesso das atividades econômicas que ali se desenvolvem. Principalmente se considerarmos que a longevidade da população tem aumentado significativamente em todo o mundo e que acessibilidade para todos é muito mais do que uma simples necessidade, é um direito de todo cidadão.

 

E neste processo o arquiteto é ator principal. Como profissional responsável por efetuar a análise das demandas do cliente, do projeto e das características do lugar, deve buscar as soluções necessárias para garantir o sucesso dos empreendimentos e a qualidade de vida das pessoas. Seja através de propostas dentro do próprio lote onde se projeta, que integrem as edificações e o entorno, ou através de ações junto aos órgãos públicos no sentido da implementação da sinalização adequada e necessária, a viabilização de áreas de estacionamento público que possam atender a todos, ou até mesmo mobilizando a comunidade em torno de um bem maior: uma cidade mais acolhedora, justa e inclusiva.

 


 

 

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