Arquitetura inclusiva – adaptações para residências não acessíveis

July 20, 2017

 

Pensar em arquitetura inclusiva dentro de casa significa falar de espaços que foram pensados para todos os moradores daquele lugar, em todos os períodos da vida, ou seja:  jovens, crianças, idosos, gestantes, pessoas com ou sem deficiência, entre outros. Assim, a estrutura arquitetônica da casa precisa oferecer condições para que todas estas pessoas, com suas características e habilidades físicas possam habitá-la.

 

Quando nos deparamos com imóveis existentes que não foram pensados para serem inclusivos, o problema torna-se relativamente complexo, em especial por alguns fatores:

 

  • Normalmente os espaços possuem dimensões reduzidas;

  • A existência de barreiras arquitetônicas tais como degraus, circulações e portas estreitas;

  • Circulações verticais realizadas apenas através de escada;

  • Inexistência de rota acessível a partir da rua;

  • Banheiros pequenos;

  • Cozinhas com pias em alturas inadequadas e inacessíveis;

  • Mobiliário inadequado.

Não existe uma receita para a adaptação de espaços existentes. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

 

Muitas vezes os recursos que o espaço existente oferece, mesmo transformado através de grandes reformas, não são suficientes para que a residência seja plenamente acessível. Nem sempre será possível implantar soluções com design universal.

 

Nestes casos é extremamente importante ter bom senso: acessibilidade parcial pode ser melhor do que nenhuma acessibilidade, desde que as necessidades das pessoas que vão morar naquele local possam ser atendidas da melhor maneira possível e com o maior espectro que se conseguir.

 

Este raciocínio coloca os usuários no centro do problema do projeto. É de suma importância que olhemos para as pessoas e compreendamos suas necessidades e como elas interagem com o meio construído para que possamos apresentar soluções adequadas e duradouras. A observação do usuário em interação com o espaço é uma rica fonte de informação no desenvolvimento de projetos de espaços acessíveis com alta qualidade e performance.

 

Para exemplificar apresentamos abaixo um projeto que desenvolvemos em 2010 no Laboratório Adaptse da Escola de Arquitetura da UFMG sob coordenação do Prof. Dr. Marcelo Pinto Guimarães.

 

Fomos procurados para elaborar um projeto para adaptação do apartamento onde um senhor e seus filhos moravam, sendo que um dos rapazes usava cadeira de rodas. A análise da planta original do apartamento nos mostrou que os espaços eram inacessíveis para uma pessoa em cadeira de rodas, bem como não possuíam o suporte necessário para a realização das atividades cotidianas com autonomia por todas as pessoas.

 

Nestas condições, considerando as habilidades físicas do morador com deficiência, a relação com o espaço torna-se difícil e estressante. A ausência de autonomia influenciava negativamente o convívio social e a interação familiar dentro de um clima de normalidade, criando um estigma pela incapacidade de ação.

 

 

 

 

O objetivo principal do projeto era solucionar as questões de acessibilidade para que o morador com deficiência pudesse ter mais autonomia e assim estimular o convívio familiar.

Para tanto, as seguintes intervenções foram propostas:

 

1 – Salas de estar e jantar: substituição do mobiliário existente por outro com dimensões e design mais adequados, que permitissem a livre e segura circulação de todas as pessoas no ambiente, bem como espaço para a aproximação e uso dos móveis, equipamentos e outras facilidades. A sala de estar recebeu a TV e passou a ser um espaço de convívio para a família.

 

2 – Inversão da posição do dormitório 3 para facilitar e ampliar os espaços de circulação e manobra da cadeira de rodas na área íntima da residência. Onde antes era o referido dormitório (que foi para o lugar da antiga sala de TV), foi projetado um pequeno home-office que será compartilhado por todos.

 

3 – Aumento da largura do corredor para propiciar a manobra da cadeira de rodas. Um grande armário foi disposto neste corredor para suprir parte dos armários que foram retirados dos dormitórios 1, 2 e 3. Este armário servirá para as roupas de cama e poderá ser compartilhado por todos os moradores da casa.

 

4 – Nos dormitórios 1, 2 e 3 os armários embutidos foram retirados para permitir a colocação de portas mais largas (as passagens antigas tinham apenas 72 centímetros de largura). Todo o mobiliário foi redesenhado e o leiaute dos dormitórios considera espaço suficiente para a manobra da cadeira de rodas. Em especial no dormitório 2, que será ocupado pelo morador com deficiência, há espaço para aproximação e uso do armário, da cama e da bancada de estudo.

 

5 – No dormitório suíte a porta foi substituída por outra com largura de 82 centímetros e o espaço de 30 cm próximo à maçaneta - necessário para a aproximação de pessoa em cadeira de rodas - foi previsto. Desta forma, o acesso a este ambiente ficou garantido.

 

6 – O banheiro social foi ampliado e recebeu todos os equipamentos necessários para que pessoas em cadeiras de rodas possam utilizá-lo. Barras de apoio foram instaladas, bacia sanitária com altura adequada e dispositivo de acionamento da descarga acessíveis, chuveiro com desviador, bem como a instalação de acessórios em altura adequada para o alcance manual de todos os usuários.

 

 

Os revestimentos também foram trocados para proporcionar melhor contraste de cores entre piso e parede, proporcionando uma sensação de tridimensionalidade do ambiente mais equilibrada, tornando o espaço mais confortável para o usuário.

 

Foram instaladas torneiras do tipo monocomando com alavanca e o box em vidro temperado foi substituído por uma cortina plástica para aumentar a segurança na hora do banho.

 

Além disso, este espaço passou a ter duas portas: uma para acesso a partir do dormitório 2 e outra para acesso a partir da circulação. Esta alteração permite que o banheiro funcione como uma semi-suíte para o morador com deficiência, proporcionando mais conforto, principalmente na hora do banho, já que possibilita que a troca de roupa seja feita no dormitório, onde o espaço para movimentação é maior.

 

 

 

7 – Cozinha: foi ampliada e totalmente remodelada. As bancadas existentes foram substituídas por outras em altura compatível para o acesso de pessoas em cadeiras de rodas. Pia, fogão e geladeira foram reposicionados considerando-se o menor esforço para o uso. Todo o mobiliário foi redesenhado para ser acessível para todos os usuários.

 

 

8 – Área de serviço: a mesa de passar roupa fixa foi substituída por um armário alto, que reposicionado proporcionou o espaço suficiente para aproximação ao tanque. Uma tábua de passar de embutir foi colocada dentro do armário em substituição à que foi retirada.

 

Com estas alterações, a estrutura arquitetônica do apartamento passa a oferecer uma acessibilidade mínima para todos os moradores e suporte adequado para um maior número de atividades, estimulando o convívio entre os familiares e amigos, diminuindo o esforço e o stress, aumento a qualidade de vida para todas as pessoas.

 

No caso do exemplo acima a arquitetura existente foi favorável às intervenções. Contudo, haverá situações em que reformas não serão possíveis, os ganhos com a acessibilidade não serão alcançados e chegaremos à conclusão de que aquele imóvel não supre às necessidades de seus moradores. Nestes casos a melhor saída é orientá-los a procurar um outro lugar que atenda melhor ao que eles precisam.

 

 

 

 

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