Arquitetura Inclusiva – As relações entre o homem e o ambiente

July 7, 2017

 

O desenvolvimento de projetos de arquitetura que atendam plenamente às necessidades de seus usuários passa, necessariamente, pela compreensão das relações entre o homem e o ambiente.

 

Os resultados destas relações produzem informações valiosas, principalmente para os projetos elaborados com Design Universal, visto que são projetos orientados para os usuários.

 

Destacamos abaixo alguns conceitos importantes que ajudarão na compreensão das relações homem-ambiente e sua importância para projetos de arquitetura inclusiva.

 

 

 

Percepção e experiência ambiental

 

A percepção e a experiência do espaço é um processo que depende de fatores culturais, sociais e das características e habilidades físicas de cada indivíduo. Ela acontece no contexto da realidade e influencia a relação das pessoas com os lugares onde vivem. Tem grande importância nas relações sociais, na medida em que pode estabelecer laços emocionais com os lugares, favorecendo ou não o uso do ambiente e o convívio das pessoas.

 

Existem várias teorias que tratam das questões da percepção e da experiência ambiental. O que há de comum dentre várias delas? A afirmativa de que o ambiente serve de estímulo para os sentidos humanos e de que os conhecimentos e a referência cultural e social de cada um produzem um tipo de percepção em relação a este ambiente.

 

Segundo Gibson (1986), as pessoas percebem o ambiente de maneira direta, através das ações cotidianas que acontecem no espaço, ou seja, a realidade como um todo. A percepção é composta por informações internas, que pertencem à pessoa e informações externas, provenientes do ambiente onde o evento acontece. Assim, o estilo de vida das pessoas e as possibilidades de ação que o ambiente oferece são inseparáveis no processo de percepção da realidade.

 

Já na teoria da Gestalt, o meio ambiente estimula nossos sentidos, principalmente através da visão. O ambiente como um todo é percebido na medida em que um processo mental organiza as formas, as cores, sons, texturas e cheiros captados pelos sentidos humanos, constituindo o conjunto da realidade (KOFFKA, 1975).

 

Para Hall (2005), a percepção espacial está condicionada àquilo que aprendemos em nossa infância, de maneira que cada cultura estimula a apreensão de determinadas informações no ambiente, em detrimento de outras, estabelecendo certos padrões perceptivos, de maneira que a cultura do lugar é fator determinante na percepção do espaço.

 

Todas estas inferências na percepção do espaço fazem com que a experiência do ambiente seja muito particular para cada pessoa, em especial para as pessoas com deficiência (PICCELI, 2009).

 

 

 

Orientação espacial

 

Tanto para o meio urbano quanto para edificações, a capacidade de se orientar no espaço é uma habilidade que desenvolvemos a partir da percepção do ambiente.

 

Segundo Lynch (1980), a visão, como elemento principal do conjunto dos sentidos, somada à memória de experiências passadas produzem uma imagem do meio ambiente própria de cada indivíduo. Porém, existem certas imagens de cidades ou locais que são comuns para o grupo social que frequenta aquele local.

 

Estas imagens chamam-se mapas cognitivos e funcionam como modelos mentais da realidade, e são utilizados pelas pessoas para se localizarem na cidade, tais como monumentos, edifícios, cruzamentos de vias, etc. (LYNCH, 1980).

 

 

 

Influências ambientais no cotidiano

 

 

Falar sobre as influências dos ambientes no cotidiano das pessoas, significa entendermos as condições de usabilidade, acesso, satisfação, segurança e conforto no uso do ambiente, principalmente quando tratamos de arquitetura inclusiva.

 

Ambientes que não são acessíveis, além de comprometerem o uso de todas as pessoas, podem trazer consequências psico-sociais (STEINFELD, DUNCAN e CARDELL, 1977), em especial para as pessoas com deficiência.

 

Para compreender melhor o que isto significa, adotaremos o conceito de deficiência definido por Guimarães (2008):

Trata-se de uma relação de desajuste entre três aspectos: a capacidade potencial do surgimento de uma habilidade, a experiência vivenciada desta habilidade em um determinado contexto e os recursos disponíveis no meio construído que possam permitir tal experiência (GUIMARÃES, 2008).

 

Assim, podemos dizer que a deficiência não está somente nas características físicas de uma pessoa. Ambientes inacessíveis limitam o uso e o acesso, comprometem as relações das pessoas no contexto sócio-cultural e estimulam o surgimento de barreiras atitudinais que impedem que pessoas com deficiência interajam socialmente, podendo inclusive estigmatizar negativamente estas pessoas pela falta de equiparação de oportunidades no uso dos ambientes, tendo como consequência disto a segregação de grupos com determinadas características (STEINFELD, 1979).

 

Quando o ambiente nivela as oportunidades, tira-se o foco da deficiência da pessoa e a interação social acontece em uma atmosfera de normalidade, eliminando-se o estigma (STEINFELD, 1979).

 

Se o espaço construído oferece condições equiparadas para todos, ele influencia positivamente o cotidiano, aumentando a possibilidade da experiência de habilidades diversas dentro do contexto sócio-cultural, permitindo a inclusão, criando a possibilidade de um contexto social enriquecedor, valorizando as diferenças (PICCELI 2009).

 

Desta forma, não é possível pensar em arquitetura inclusiva sem considerar o quanto as características dos espaços podem influenciar nas relações sócio-culturais das pessoas, e estimular ou inibir o uso dos espaços e o convívio.

 

 

 

 

Referências

 

 

GIBSON, James J. The ecological approach to visual perception. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 1986.

 

HALL, Edward T. A dimensão oculta. Tradução: BARCELLOS, Waldéa. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

GUIMARÃES, Marcelo Pinto. Desenho universal é design universal: conceito ainda a ser seguido pelas Normas Técnicas NBR-9050 e pelo Decreto-lei da Acessibilidade. In Portal Vitruvius - Arquitextos 096.03. Maio/2008. Disponível em: http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.096/141. Acesso em 23/06/2017.

 

KOFFKA, Kurt. Princípios de Psicologia da Gestalt. Tradução: CABRAL, Álvaro. São Paulo: Cultrix, 1975.

 

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Trad. AFONSO, Maria Cristina Tavares, Lisboa: Martins Fontes Ltda. 1980.

 

PICCELI, Angélica Fátima Baldin. O gerenciamento para a acessibilidade ambiental de pessoas com mobilidade reduzida: Institucionalizando a inclusão em uma escola universitária. 2009. Dissertação. Faculdade de Arquitetura. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.

 

STEINFELD, Edward; DUNCAN, James; CARDELL, Paul. Toward a responsive environment: the psychological effects of inaccessibility. In BEDNAR, Michel J. Barrier-Free Environments. Pennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. Pennsylvania, 1977.

 

________. Changing attitudes through design. In Access to the built environment: a review of literature. Whashington: Department of Housing and Urban Development – HUDD, 1979. P.144-150.

 

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